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sexta-feira, 28 de junho de 2013

A posta de pescada ou a arte de se fingir que se sabe de tudo

Como já tinha dito, sou linguista, quer dizer, sou formada em Linguística, e, ao contrário do que muitas pessoas pensam, isso não significa que sei muitas línguas. Aquilo que sei, e o que me fascina, é a maneira como as pessoas aprendem uma língua e, principalmente, como a usam, como a modelam para servir os seus propósitos, como são ambíguas e específicas, como usam os diferentes registos, como reflete a maneira como vêem o Mundo.

Hoje venho falar sobre esse importante conceito discursivo que é a «posta de pescada» que muito me tem interessado ultimamente, não só porque elas têm andado a voar por aí, mas também porque são um óptimo exemplo dos aspectos de que falei.

Eu tenho um grande defeito, sou daquelas pessoas que quer saber sobre tudo, e depois não sabe sobre nada. Num minuto estou determinada a fazer tudo e mais alguma coisa, e no outro, já não quero saber.

Ao longo do tempo já estudei carros, aviões, futebol, computadores, electricidade, armas, filosofia, treino desportivo, história, ciência política, economia, russo, alemão, e a lista podia continuar, mas, como já disse, farto-me rápido.

E alguém diz: «Epá, impressionante.»
E eu respondo: «Neh, nem por isso.»

A única coisa para que isto serviu foi para gastar dinheiro e, para, de vez em quando, mandar umas postas de pescada que impressionam quem não me conhece. É uma arte que eu domino, mandar postas de pescada, se houvesse uma licenciatura para isso, eu já a tinha (por equivalências, claro).

Fingir que se sabe de uma coisa que não se sabe, é uma arte. Se se for ao pote com muita sede, não só corremos o risco de ser apanhados como corremos o risco de toda a gente perceber que nos estamos a armar em espertos. Debitar informação da Wikipédia toda a gente sabe, o que muita gente não domina é a arte de seleccionar a informação e de a guardar para o momento correcto.

Aqui vai então o meu

Manual rápido para fingir que se sabe de tudo, quando não se sabe de nada 

1. Recolher e seleccionar a informação

Hoje em dia temos tanta informação ao nosso dispor que se torna difícil impressionar alguém. Para o propósito, informação superficial não interessa. 

Interessam coisas do tipo:
- Jargão de comunidades mais ou menos exclusivas
- Detalhes da mecânica de vários tipos de máquinas
- Marcas e modelos de vários tipos de máquinas
- Factos insignificantes que tenham ocorrido, pelo menos, vinte anos de nascermos (guerras e acontecimentos históricos não contam, saber quando o Homem chegou à Lua não tem piada)
- Premonições (este é o melhor tipo, consiste em fazer previsões para o futuro que parecem ser baseadas num estudo extensivo das variáveis, mas que, na verdade, se leu no Guia Astrológico para 2013)

2. Apresentar essa informação

É aqui que se pode ver o nosso conhecimento linguístico e interaccional a funcionar em toda a sua grandeza.
Na análise da conversação, a maneira como a vez passa de um falante para o outro chama-se «gestão de turnos» (do inglês turn management). Quando uma pessoa está numa conversa manda ao seu interlocutor sinais de que quer a vez para falar, como, por exemplo, endireitar o tronco e chegar-se para a frente, uma respiração profunda, etc. Isto é tudo aquilo que vocês não querem, é entrar na conversa delicadamente. Se o fizerem, provavelmente as pessoas vão parar para vos ouvir falar e é quase certo que BUSTED! 
Pelo contrário, devem ser o mais abruptos possível de modo a marcarem presença, mas não captarem a atenção, entrando assim, de certo modo, no inconsciente dos vossos sujeitos.

A posta de pescada configura-se assim como espécie de «toca e foge» conversacional, uma manobra arriscada que não aconselho a tentar sem a ajuda de profissionais.